“Que o vento leve nossas
apreensões para um canto onde possam ser compreendidas. Que o tempo amenize ou
erradique todas as feridas dos nossos erros. Que a vida nos ensine a levá-la
mais leve, menos a sério.”
Manhã de segunda-feira e os problemas não pediam licença para chegar. Meu filho havia terminado o namoro. Meu
ex-marido queria pagar uma viagem para ele. Não concordava e alegava mais uma
vez que estava sendo machista: homem também pode sofrer!
Resolvi andar no meu horário de
almoço para distrair. O tempo que dispunha era discrepante com a quantidade de compromissos agendados para aquele dia e a minha capacidade e agilidade para
resolvê-los. Sentia-me cansada. Não pelo momento, mas pela idade que pesava nos pés, nas costas e cabeça. Meu fôlego já não era o mesmo: uma volta na praça e já precisava
de um descanso no banco cinza e duro da praça. Eu sempre amei aquela praça, e
adorava ver a diversidade das pessoas que ali frequentavam. Não importava,
muitas vezes, o risco de uma senhora da meia idade estar ali altas horas da noite.
Era meu alivio e a recarga das minhas energias.
No banco cinza, estava uma
mulher. Também meia idade? Olhei para o lado, e imediatamente, ainda que o
tempo tenha levado sua juventude, aquele rosto nunca me foi esquecido.
Vi Que ela olhou e reparou nas
minhas rugas, nos meus cabelos menos sedosos, na minha face modificada. Olhou
para as minhas mãos e viu as marcas do tempo. Conseguiu ver que os meus sapatos
não são mais da mesma loja que adorava, e as minhas roupas se distinguem em
tamanho e jovialidade das que usei quando a vi pela última vez.
Os olhos se enchem d’água, e as
lembranças são inevitáveis. Lembramos-nos das grandes e pequenas aventuras, dos
amores que acreditávamos ser por toda vida, dos planos de casamentos tão
frustrantes nos forçando ao apoio mutuo. Rimos dos nossos filhos, como
aprontam! Contamos de como o trabalho está complicado, de como cada uma
precisava de férias e momentos para rir e beber uma boa gelada...
Mas os olhos apenas se cruzaram,
no tempo da percepção ficar apenas nos sapatos e nos cabelos grisalhos. E toda troca de risada, carinho
e amor, nunca existiu. Apenas nos cumprimentamos e partimos, para vida levada a
sério.