segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Que o tempo nos cure e nos guarde. Amém!

“Que o vento leve nossas apreensões para um canto onde possam ser compreendidas. Que o tempo amenize ou erradique todas as feridas dos nossos erros. Que a vida nos ensine a levá-la mais leve, menos a sério.”

Manhã de segunda-feira e os problemas não pediam licença para chegar. Meu filho havia terminado o namoro. Meu ex-marido queria pagar uma viagem para ele. Não concordava e alegava mais uma vez que estava sendo machista: homem também pode sofrer!
Resolvi andar no meu horário de almoço para distrair. O tempo que dispunha era discrepante  com a quantidade de compromissos agendados para aquele dia e a minha capacidade e agilidade para resolvê-los. Sentia-me cansada. Não pelo momento, mas pela idade que pesava nos pés, nas costas e cabeça. Meu fôlego já não era o mesmo: uma volta na praça e já precisava de um descanso no banco cinza e duro da praça. Eu sempre amei aquela praça, e adorava ver a diversidade das pessoas que ali frequentavam. Não importava, muitas vezes, o risco de uma senhora da meia idade estar ali altas horas da noite. Era meu alivio e a recarga das minhas energias.
No banco cinza, estava uma mulher. Também meia idade? Olhei para o lado, e imediatamente, ainda que o tempo tenha levado sua juventude, aquele rosto nunca me foi esquecido.
Vi Que ela olhou e reparou nas minhas rugas, nos meus cabelos menos sedosos, na minha face modificada. Olhou para as minhas mãos e viu as marcas do tempo. Conseguiu ver que os meus sapatos não são mais da mesma loja que adorava, e as minhas roupas se distinguem em tamanho e jovialidade das que usei quando a vi pela última vez.
Os olhos se enchem d’água, e as lembranças são inevitáveis. Lembramos-nos das grandes e pequenas aventuras, dos amores que acreditávamos ser por toda vida, dos planos de casamentos tão frustrantes nos forçando ao apoio mutuo. Rimos dos nossos filhos, como aprontam! Contamos de como o trabalho está complicado, de como cada uma precisava de férias e momentos para rir e beber uma boa gelada...
Mas os olhos apenas se cruzaram, no tempo da percepção ficar apenas nos sapatos e nos cabelos grisalhos. E toda troca de risada, carinho e amor, nunca existiu. Apenas nos cumprimentamos e partimos, para vida levada a sério.