sexta-feira, 26 de abril de 2013
Carmuzia
A velha história de Carmuzia nunca ia se passar no Cinema. Ela era uma velha, e escutava demais o seu radio velho (que chiava muito) todos os dias. Adorava aquele programa romântico, que dava oportunidade para as pessoas desesperadas mandarem seus recados para seus (as) amados (as). Não entendia o que era divertir, o que era rir, o que era sofrer, nem o que era chorar. Não sentia. Ela aprendeu assim. Quando a perguntavam se havia sofrido pela morte do seu esposo, cujos foram casados durante trinta anos, ela não sabia responder. Dizia, não sei, não senti.
Certa noite, quando ligou o rádio para escutar o seu velho e rotineiro programa, esbarrou no botão e teve que sintonizar o rádio. Neste momento, uma voz grave, porém suave, comunicava a morte de um famoso, um ator muito conhecido. Carmuzia decidiu que escutaria o anúncio fúnebre. Não porque se interessava pela morte ou vida do ator, mas porque queria ouvir uma noticia ruim, como se procurasse, de alguma forma, sentir.
O Radialista demonstrava tristeza em sua voz, como se lamentasse. Carmuzia tentava compreender porque um comentarista de rádio estava tão atordoado com uma morte, todos os dias morriam milhares de pessoas. Não tão famosas, mas era comum que as pessoas morressem, ela pensava. Parecia um pensamento frio, como se ela não tivesse coração.
Aquela mulher não sofreu de amor, mas também nunca se apaixonou .
Aquela mulher não decepcionou-se, mas não manteve nenhum laço de amizade.
Aquela mulher nunca chorou, nem de riso nem de tristeza.
Quando o locutor terminava o anúncio fúnebre, anuncia a leitura de uma carta, que aquele ator havia deixado, como herança para seus filhos. Carmuzia logo imaginou que iria falar do testamento, das fortunas que aquele astro tinha acumulado por toda a vida, mas que agora de nada o valia. De repente, o locutor, eloquente e mantendo o tom de sua voz, começa a ditar um epitáfio um tanto quanto triste.
Suas palavram começaram vagas, e Carmuzia continuava a picar os legumes para o jantar. Quando o radialista, disse: "eu não vivi, não senti. Passei a vida procurando o correto, procurando não incomodar os outros, sendo o que gostariam que eu fosse. Passei parte da minha vida acumulando riquezas, que hoje, não servem para me deixar feliz. Tive oportunidades de sentir grandes emoções, mas me prendi no medo das consequências, medo de não dar conta de quando a felicidade esvaísse. Preferi permanecer na tristeza a passar fortes e significativos momentos bons. Tive a oportunidade de escolher, mas preferi a segurança, o monotono, com medo de me arriscar. Não me permiti permitir. Não fui capaz de deixar que os momentos fornecessem os mais valiosos tesouros, quantas vezes cortei gritos de felicidades dos meus filhos para não incomodar os vizinhos? Por quantas vezes não me permiti dar aquela gargalhada, pelo fato de não ser cortês? Por quantas e quantas vezes eu quis comer uma azinha de franco com a mão, mas o restaurante era chique demais. Me servi da etiqueta, do padrão, da qualidade, mas esqueci de soltar o meu coração, de abrir minha mente, de sorrir por nada, de chorar de dor, de carregar minha cruz.
Esqueci que não há nada mais importante que o amor.
Mantive, e não vivi. A herança que deixo a vocês, meus filhos, é a vida. Se vocês estão lendo esta carta é porque foi permitido a vocês, então permitam-se.Vivam, deixem que as coisas simples os envolvam, que o amor os guie, pois não há motivo se não este para estarem vivos."
Aquela mulher que nunca nenhuma palavra a tocara, nenhum abraço a fez sentir humana, nenhum beijo a fez apaixonar-se, viu uma lágrima escorrer em seu rosto. Largou tudo que estava nas mãos, entrou no seu quarto e fez suas malas. Quando já estava no seu portão, um vizinho a perguntou: "-Carmuzia, vai viajar e deixar sua casa sozinha?" Ela respondeu com um sorriso, e continuou. Seu destino era a vida.
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